Sermão do XVII Domingo depois de Pentecostes

Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

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Caríssimos fiéis, no Evangelho de hoje, ouvimos com uma simplicidade divina o grande resumo de todas as nossas várias obrigações. A santa caridade. A rainha de todas as virtudes. Com ela, merecemos os céus. Sem ela, nada vale.

Ora, se Nosso Divino Mestre mandou que amássemos de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso espírito, então é possível com sua graça. Não só isso, mas, considerando que destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas, temos que nos examinar se estamos bem guardando estes dois mandamentos supremos.

Primeiro, não podemos dar nenhuma porção de nosso amor a um ídolo, ou seja, a qualquer coisa que é contrária a Deus. Tudo o que não é o próprio Deus ou algo que conduz a Ele não pode ser objeto de nosso amor. Ou seja, em nosso coração não se deve encontrar amor algum para o pecado. O pecado mortal nos afasta de Deus, detrona o Onipotente de nosso coração e violentamente destrói em nós a amizade com Deus. Mas, para sermos perfeitos como nosso Pai que está nos céus é perfeito, de nosso coração temos que arrancar, por oração e mortificação, qualquer apego para o pecado, mesmo venial. O apego para pecado venial é o maior obstáculo em nosso caminho da santidade. O cristão sério não pode procurar ser santo e, ao mesmo tempo, estar em paz com este inimigo. E como Sto. Agostinho disse: Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.

Em segundo lugar, todos os nossos pensamentos, palavras, ações e amor devem tender a Deus como fim último. Tudo o que está fora dessa ordem é pecado. Se em nossas boas obras ou palavras altas estamos buscando a nós mesmos, estamos nos enganando quando dizemos que estamos servindo a Deus. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor.

Em terceiro lugar, devemos apreciar o amor de caridade sobre todas as coisas. Pode-se entender que ela é a pérola de grande preço; que é melhor perder tudo para consegui-la. Sem uma revelação divina, não podemos ter certeza absoluta de nosso estado de graça, se estamos com essa preciosíssima pérola. Portanto, sempre devemos pedir a Deus a graça de perfeitamente amá-lo e de crescermos dia após dia neste santo amor. Com este amor perfeito, o cristão está bem disposto a guardar todos os preceitos e obedecer à vontade de Deus em tudo. Com os santos entendamos que a medida de amar a Deus é amar sem medida.

Agora, consideremos o segundo grande mandamento: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Há várias expressões deste mesmo mandamento. Pois, em outro lugar, Nosso Senhor disse: Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a lei e os profetas. E São Paulo: Levai os fardos uns dos outros; desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. E em outro lugar: A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor mútuo, porque aquele que ama o próximo cumpriu a lei.

Então, como lição simples, caríssimos fiéis, lembrem-se que a nossa vida nos fornece inúmeras ocasiões de suportarmos os fardos uns dos outros e, portanto, de cumprirmos bem a lei do Evangelho. Ouçam as palavras de nosso seráfico pai São Francisco: A todos os meus Frades aconselho, admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo que, quando vão pelo mundo, não litiguem, nem questionem, nem censurem os demais; mas sejam mansos, pacíficos, modestos e humildes e a todos falem honestamente, como convém. E como São Paulo nos ensina hoje na epístola, e eu faço suas palavras minhas: Rogo-vos que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz.

Hoje continuaremos nossa catequese, falando do segundo artigo do Credo: E em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor. São João escreveu: Quem confessa que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele permanece em Deus. Também, quando São Pedro falou: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo, Nosso Senhor respondeu-lhe, dizendo: Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, pois não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas antes Meu Pai que está nos céus. Realmente, esta fé e esta profissão constituem a base mais sólida para nosso resgate e salvação.

Na última lição catequética, falamos sobre nossos primeiros pais, as graças e beleza de alma e ordem que pertencia a eles pela bondade de Deus, naquele estado original antes da queda. Os admiráveis frutos do artigo que tratamos hoje aparecem com mais evidência quando consideramos quão grandes são os males do pecado original. Lembremos que a desordem das paixões e más inclinações são efeitos desta triste queda. Em vista de tal ruína e desgraça, não restava, pois, outro remédio, senão o infinito poder com que o Filho de Deus, assumindo a fraqueza de nossa carne, devia destruir a infinita malícia do pecado e, pelo Seu Preciosíssimo Sangue, nos reconciliou com Deus.

Ora, o crer na Redenção e o professá-la sempre foram condições necessárias para a salvação dos homens. Assim Deus o ensinou, desde o início da Revelação. No mesmo instante que condenava o gênero humano, imediatamente após o pecado, Deus fez nascer a esperança de resgate, pelas palavras com que anunciou ao demônio a dura derrota que lhe resultaria da libertação dos homens: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça e a sua descendência. Esmagará ela a tua cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.”

Mais tarde, Deus confirmou por muitas vezes a mesma promessa. Entre outros, o patriarca Abraão recebeu frequentes indicações a respeito deste mistério. Na hora, porém, em que ia imolar Isaac, seu filho único, por obediência a Deus, Abraão veio a ter revelações mais explícitas.

Deus, com efeito, lhe disse: “Porque assim procedeste, a ponto de não poupar teu filho único, Eu te abençoarei, e multiplicarei tua descendência como as estrelas do céu, e como a areia que jaz nas praias do mar. Tua geração possuirá as portas de teus inimigos, e em tua raça serão abençoados todos os povos da terra, porque obedeceste à minha voz.”

Destas palavras, era fácil reconhecer que, da posteridade de Abraão, nasceria Aquele que havia de livrar todos os homens da horrenda tirania de Satanás e trazer-lhes a salvação. Ora, o Libertador prometido devia ser também Filho de Deus, ainda que fosse, como homem, gerado do sangue de Abraão.

Pouco tempo depois, para que se conservasse a recordação da promessa, o Senhor reafirmou a mesma aliança com Jacob, neto de Abraão.

Na ocasião de ver, durante o sono, uma escada firmada na terra, mas com a ponta tocando o céu; e vendo também os Anjos de Deus que por ela subiam e desciam, como afirma a Escritura — Jacob ouviu ao mesmo tempo a voz do Senhor que, apoiado na escada, lhe dizia: “Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, e Deus de Isaac. Dar-te-ei, a ti e à tua posteridade, a terra em que estás dormindo. E tua geração será como o pó da terra. Hás de estender-te para o Oriente e o Ocidente, para o Setentrião e o Meio-Dia. Em ti e na tua geração serão abençoadas todas as tribos da terra.”

Depois disso, Deus nunca deixou de renovar a recordação de Sua promessa, nem de manter a esperança do Salvador, não só entre os filhos de Abraão, mas também entre muitos outros homens. Os profetas, cujo espírito era aclarado por uma luz celestial, falavam diante do povo e anunciavam-lhe o nascimento do Filho de Deus, as obras admiráveis que havia de praticar depois de Sua Encarnação, Sua doutrina, Seus costumes, Seu trato, Sua morte e ressurreição, e os outros mistérios.

Agora passamos a tratar cada um dos termos do presente Artigo. O nome de Jesus. Jesus é o nome próprio d’Aquele que é Deus e homem ao mesmo tempo. Significa “Salvador”. Não lhe foi posto casualmente, por escolha e vontade dos homens, mas por ordem e intenção de Deus.

Assim o declarou o Anjo Gabriel a Maria, Sua Mãe: “Eis que conceberás em teu seio, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus.”

Verdade é que, nas Escrituras, se nos deparam muitas pessoas com esse mesmo nome. Assim se chamava o filho de Navé que sucedeu a Moisés; teve o privilégio, negado a seu antecessor, de levar à Terra de Promissão o povo que o mesmo Moisés havia arrancado do cativeiro do Egito. Assim se chamava também o filho de Josedec, sumo-sacerdote.

Mas com quanto mais acerto não se deve atribuir esse nome a Nosso Salvador! A Ele que deu luzes, liberdade e salvação, já não a um povo singular, mas a todos os homens de todas as épocas. A Ele que os livrou, não diremos da fome ou da opressão do Egito e da Babilônia, mas das sombras da morte em que estavam sentados, presos com os duríssimos grilhões do pecado e do demônio. A Ele que lhes adquiriu o direito à herança do Reino dos céus e os reconciliou com o Pai Eterno.

Ao nome de Jesus também se acrescentou o apelido de “Cristo”, cuja significação é “Ungido”. Serve para designar uma dignidade e um ministério. Na antiguidade, nossos pais chamavam de “cristos” aos sacerdotes e aos reis, porquanto Deus ordenara que fossem ungidos, em atenção à dignidade de seu ministério.

Sacerdotes são aqueles que, por meio de assíduas preces, recomendam o povo a Deus. São eles que oferecem sacrifícios a Deus e aplicam pelo povo o poder de sua intercessão.

Aos reis, porém, está confiado o governo dos povos. Seu dever primordial é salvaguardar a autoridade das leis, proteger a vida dos inocentes e punir a audácia dos criminosos.

Ambos os ministérios são, pois, uma imagem da majestade de Deus, aqui na terra. Por isso, os que eram eleitos para a dignidade real ou sacerdotal recebiam a unção do óleo santo.

Era também costume ungirem-se os Profetas. Na qualidade de intérpretes e mensageiros de Deus imortal, eles revelavam os segredos do céu e, com salutares conselhos e predições do futuro, nos exortavam à regeneração dos costumes.

Ora, quando veio a este mundo, Nosso Salvador Jesus Cristo tomou sobre Si o tríplice encargo e função de profeta, de sacerdote e de rei. Por esse motivo é que foi chamado “Cristo” e ungido para o desempenho daqueles ministérios. Não o foi com uma unção de óleo terrestre, mas de óleo espiritual, quando em Sua Alma humana santíssima se derramaram a graça, a plenitude e os dons do Espírito Santo, em tal superabundância que nenhuma outra criatura a poderia jamais comportar.

Jesus Cristo foi, portanto, o Profeta e Mestre supremo que nos ensinou a vontade de Deus e cuja doutrina fez ao mundo conhecer o Pai celestial. Cristo foi também sacerdote, não na ordem pela qual na Antiga Lei os sacerdotes procediam da tribo de Levi, mas por aquela que o profeta David exaltou: “Vós sois sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec”. Reconhecemos, igualmente, que Cristo é Rei, não só como Deus, mas também enquanto Homem, participante de nossa natureza. De Sua dignidade real disse o Anjo Gabriel: “Há de reinar eternamente na casa de Jacob, e Seu reino não terá fim.” Ele é Rei de sua Igreja. Ela a governa, defende-a dos ataques do inimigo; prescreve-lhe leis, comunica-lhe santidade e justiça; proporciona-lhe, ainda por cima, força e meios de perseverar. Deus reuniu em Sua humanidade tudo o que a natureza humana podia comportar de poder, grandeza e dignidade. Entregou-Lhe, portanto, o governo do mundo inteiro. E Cristo já começou a dominar, mas só no dia do Juízo é que todas as coisas se curvarão, plena e incondicionalmente, à Sua autoridade.

Agora consideremos as palavras deste Artigo: Um só Seu Filho. Jesus Cristo é Filho de Deus e verdadeiro Deus como o Pai, que O gerou desde toda a eternidade. Além disso, confessamos que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, perfeitamente igual às duas outras Pessoas Divinas. Nenhuma desigualdade ou diferença pode haver, ou imaginar-se nas três Pessoas divinas, porque em todas elas reconhecemos a existência de uma só natureza, de uma só vontade, de um só poder. Rezamos toda Santa Missa no final as palavras de São João a respeito deste mistério: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

Ademais, deve crer-se que o Filho tem a mesma natureza, o mesmo poder, a mesma sabedoria que o Pai. Cristo, como Deus, foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; como Homem, nasceu no tempo, de Sua Mãe, a Virgem Maria. Cristo, pois, é uma e a mesma Pessoa, na qual se unem as naturezas divina e humana. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Ele é Nosso Senhor, tanto pela sua divindade quanto por ser nosso Redentor.

Em vista de tanto amor e benignidade para conosco, que coração se não sentiria abrasado de amor por tão grande Senhor? Apesar de nos ter debaixo de Seu poder e domínio, servos que somos remidos pelo Seu Sangue, Cristo nos ama com tais extremos que já não nos chama de servos, mas de amigos e irmãos. Esta é, sem dúvida, a mais justa e talvez a mais forte de todas as razões por que devemos para todo o sempre reconhecê-l’O, venerá-l’O e servi-l’O como Nosso Senhor. Termino aqui com as belas palavras do Apóstolo do Amor, São João: Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele tenhamos a vida. A caridade consiste nisto: em não termos sido nós os que amamos a Deus, mas em ter sido ele que nos amou e enviou o seu Filho, como vítima de propiciação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, devemos nós também amar-nos uns aos outros.

Sermão da Santa Missa do XVII Domingo depois de Pentecostes, proferido pelo Rev. Pe. Frei Boaventura, O.F.M. Sub., no Oratório da Imaculada Conceição, em Botucatu/SP, em 20 de setembro de 2026.

*NOTA: Infelizmente, o sermão precisou ser abreviado devido à forte chuva. Como o Oratório possui cobertura metálica, o barulho tornou impossível ouvir o Padre durante a pregação. Enquanto não for possível instalar o forro, providenciaremos, se Deus quiser, um microfone e uma caixa de som para evitar esse problema. Agradecemos a compreensão de todos!

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