São Francisco e a
Ordem dos Frades Menores

Assis é uma pequena cidade da Umbria. Poucos a conheceriam, se lá não estivessem os sepulcros de S. Francisco e de S. Clara, se de lá não irradiassem paz e bem por todo o mundo. Francisco, filho alegre do rico comerciante Pedro Bernardone, ávido de coisas mais elevadas e desejoso de realizar grandes empresas, quis saber a vontade de Deus a seu respeito, para cumpri-la perfeitamente. Certo dia, em 1206 ou 1207, vemo-lo prostrado diante dum crucifixo na igrejinha de S. Damião; e do crucifixo ouvimos partir estas palavras: “Francisco, tu vês que a minha casa está toda em ruínas. Vai, pois, restaurá-la”. E ele vai. Começa a restaurar a pequena igreja de S. Damião, e depois mais duas nas vizinhanças de Assis, uma dedicada a S. Pedro, outra a S. Maria dos Anjos.

S. Boaventura viu na construção das três igrejas um símbolo das três Ordens que Francisco devia fundar. Ele foi escolhido pela Providência Divina a ser fundador de Ordens.

No dia 24 de Fevereiro de 1209, festa do apóstolo S. Matias, Francisco assistiu à Missa na capela de S. Maria dos Anjos ou Porciúncula. Ao Evangelho ouviu as palavras do Senhor: “Não queirais ter nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossas bolsas…”. Verdadeiro discípulo do Evangelho, contentou-se com uma túnica e um cordão, e tornou-se apóstolo, pregador da penitência. Não pensava em reunir discípulos e fundar uma Ordem religiosa. Mas as suas palavras, simples e ardentes, inflamavam os corações. Muitos desejavam imitar-lhe o exemplo; primeiro Bernardo de Quintavale, rico, sábio, consideradíssimo gentil-homem; depois o jurisperito Pedro Catani.

Qual será sua regra, sua norma de vida? Eles abrem o Evangelho e leem: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me”. “Não leveis nada para a viagem…” “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” “Irmãos, disse então Francisco, eis a nossa vida e a nossa Regra, e de todos aqueles que quiserem pertencer à nossa sociedade. Ide, pois, e fazei o que ouvistes”. Distribuíram os seus bens e receberam das mãos de Francisco um hábito religioso. Junto à igrejinha da Porciúncula, Francisco construiu uma cabana para si e para seus Irmãos.

A pequena milícia logo se multiplicou. Um dia, o santo fundador viu em espírito o futuro de seus filhos, e disse: “Ó caríssimos, confortai-vos e alegrai-vos no Senhor! Não estejais tristes por serdes poucos, não vos receeis da minha ou da vossa simplicidade, porque o Senhor me revelou manifestamente que cresceremos, e seremos uma grande multidão, dilatando-nos, com sua bênção”.

Francisco compôs então para os Irmãos uma Regra brevíssima, que constava de algumas passagens da Sagrada Escritura e de alguns pontos necessários para a vida comum. Filho obediente da Igreja Católica, levou, em seguida, seus companheiros a Roma, a fim de pedir ao Papa a aprovação da sua Regra. Inocêncio III acolheu-os benevolamente. Mas, muito prudente, não lhes deu logo a aprovação. Também entre os Cardeais havia grave oposição; e com justos motivos.

A época de S. Francisco foi um tempo de perniciosas heresias. Os cátaros e os valdenses eram os mais perigosos. Também na Umbria e em Assis tinham adeptos. Com as heresias andavam de mãos dadas a superstição, a indiferença religiosa, o ceticismo e toda sorte de vícios. A reforma da Igreja era uma necessidade. O clero parecia incapaz. Daí se explicam aqueles movimentos religiosos de leigos, que visavam a reforma, mas procuravam-na por caminhos errados, fora da Igreja e em oposição a ela.

Compreendemos as dúvidas do Papa e dos Cardeais. Só o Cardeal de S. Paulo, João Colona, advogou a causa de Francisco: “Se rejeitamos a petição deste pobre por demasiadamente difícil e nova, quando pede que lhe seja confirmada a norma da vida evangélica, cuidemos que não ofendamos o Evangelho de Cristo…”. As suas palavras surtiram efeito. O Papa, avisado também pelo Espírito divino, aprovou oralmente a Regra e a Ordem. Foi provavelmente no dia 16 de Abril de 1209 ou 1210, considerado como início da Ordem dos Frades Menores.

Francisco, transbordante de alegria, ajoelhou-se aos pés do Sumo Pontífice e prometeu-lhe obediência. O mesmo fizeram os onze companheiros nas mãos de Francisco, emitindo assim a sua profissão religiosa. O Papa encarregou o Cardeal João Colona de dar a todos a tonsura clerical.

Os doze foram habitar novamente na Porciúncula, que devia ser para sempre o berço da Ordem. Novos Irmãos pediram aqui admissão. Pouco antes, entrara Frei Gil, alma simples e humilde, mas cheia de sabedoria, bem-aventurado da Igreja. Depois, veio Frei Silvestre, primeiro sacerdote, depois Frei Leão, que Francisco escolheu para seu confessor, depois o jovem Guido de Cortona, que seria uma das mais belas flores da primavera franciscana, depois Guilherme Divini, que o imperador coroara “Rei dos versos”. Francisco deu-lhe o nome de Frei Pacífico.

O exemplo e a pregação dos Irmãos operava prodígios de conversões. Cidades faziam as pazes. Numerosos noviços foram admitidos. Os conventos se multiplicavam. E não somente homens, senão também mulheres desejavam imitar o exemplo do santo. Em 1212, foi fundada a segunda Ordem pela corajosa resolução de uma jovem de 18 anos de idade, S. Clara, “Pianticella dei S. Padre Francesco”, como ela mesma se chamava.

Entrementes, Francisco duvidava da sua vocação. Deveria consagrar-se à vida ativa ou à vida contemplativa? Deus revelou-lhe que a vocação sua e dos Irmãos seria o apostolado da pregação. Vida contemplativa e vida ativa ficariam unidas para sempre na Ordem Franciscana.

Despertou então no santo o desejo de pregar também aos infiéis. Ele aspirava a palma do martírio. Isto, porém, não estava nos planos da Divina Providência. Uma vez, ventos contrários frustraram a viagem para as missões; outra vez, séria moléstia obrigou Francisco a voltar para a Itália. Lá o vemos, em 1215, na cidade eterna, a assistir ao concílio lateranense. Foi provavelmente então que se encontrou, pela primeira vez, com S. Domingos. A amizade dos dois fundadores passou como herança sagrada a seus filhos até aos nossos dias.

Depois do concílio, Inocêncio III retirou-se a Perusa, onde, em Julho de 1216, a morte veio surpreendê-lo. Honório III sucedeu-lhe no trono de S. Pedro. O novo Papa foi a benevolência personificada. Francisco apresentou-lhe uma petição toda particular. Pediu-lhe que se dignasse conceder aos fiéis, sem oferta alguma, uma indulgência plenária, por ocasião da consagração da capela da Porciúncula. Honório não podia negar ao santo uma graça que ele pedia com tanta humildade. No dia 2 de Agosto de 1216, teve lugar a solenidade da consagração da capela. Francisco podia anunciar aos piedosos fiéis: “Eu vos quero mandar todos ao paraíso. Nosso senhor, o Papa Honório, me concedeu oralmente esta indulgência, pela qual vós que estais presentes, como aqueles que neste dia nos anos seguintes visitarão esta igreja, com o coração bem-disposto e verdadeiramente arrependidos, terão o perdão de todos os seus pecados”.

Francisco amava os homens. Amava extremamente seus filhos espirituais. Meio de mantê-los unidos, de vê-los e falar-lhes eram os Capítulos Gerais, que se celebravam todos os anos, pela festa de Pentecostes. Aí ele dava-lhes admoestações e avisos. Aí nomeava os pregadores e superiores a serem enviados para as diversas regiões.

No Capítulo de 1217, foram eleitos os primeiros Ministros Provinciais, Frei Bernardo para a Espanha, Frei Zacarias para Portugal, João de Pena para a Alemanha, outros para a Hungria e para o Oriente. Francisco escolheu para si a França. Mas o Cardeal Hugolino deteve-o na Itália.

Dois anos depois, julgou ter chegado o tempo para realizar o seu grande desejo, ir às missões e morrer pela fé. Apenas terminado o Capítulo de Pentecostes, instituiu dois vigários, Mateus de Narni e Gregório de Nápoles, este para visitar as províncias, aquele para residir em Assis. Depois, se pôs à frente de onze Irmãos e dirigiu-se ao Oriente. Em Damieta exortou o exército dos cruzados e pregou na presença do sultão Malek-el-Kamel. Não conseguiu, porém, nem a conversão do sultão, nem a coroa do martírio. Deus o conservou para o bem da sua Ordem.

Enquanto Francisco se pôs a caminho do Oriente, Frei Berardo e seus companheiros pregaram intrepidamente contra Maomé e o Corão, na presença do Miramolim de Marrocos, e foram por ele cruelmente degolados. São os protomártires da Ordem seráfica. Os seus sagrados corpos foram depositados no convento dos cônegos regulares de S. Cruz de Coimbra. Singular desígnio da Providência Divina! Na presença das santas relíquias, S. Antônio foi chamado por Deus a entrar para as fileiras de S. Francisco.

Vários motivos moveram o santo fundador a interromper a sua missão no Oriente e voltar para a Itália. Graves dificuldades ameaçavam a sua obra. Por isto, foi ter com o Papa e pediu-lhe um protetor na pessoa do Cardeal Hugolino. Os dois varões ficaram unidos para sempre numa santa amizade. O Poverello, com seus 37 anos de idade, viu no Cardeal um pai que Deus lhe mandava. Hugolino, ancião de 78 anos, amava Francisco como a um filho e venerava-o como a um santo.

Apesar de ter achado tão excelente protetor, Francisco julgava que já não podia dirigir tão grande número de Irmãos. Nomeou, pois, um vigário, Frei Pedro Catani, e, quando este faleceu, ao cabo de um ano, Frei Elias de Cortona. Mas, ainda que renunciasse ao cargo de superior, continuou como legislador e, perante a Cúria Romana, era ele considerado como supremo chefe da Ordem. Não somente deu ele a última demão à Regra, mas também outros importantes assuntos pediam-lhe solução.

Pela festa de Pentecostes de 1221, reuniu-se o grande Capítulo das Esteiras, ao qual concorreram mais de cinco mil frades, como diz S. Boaventura. O grande problema que preocupava Francisco eram ainda as missões. Depois da missão fracassada, em 1217, desejava enviar uma nova expedição para a Alemanha. Escolheu como superior o alemão Cesário de Espira e, como companheiros, o célebre João dei Pian Carpino, o historiador Tomás de Celano, o cronista Jordano de Jano e outros, que se apresentavam com a esperança do martírio. A missão teve, esta vez, um êxito brilhante. Nada de martírios, mas o mais cordial acolhimento. Plantaram a Ordem no coração da Alemanha, e depois a espalharam na Boêmia, na Hungria, na Polônia, Dinamarca, Noruega e Suécia.

O mais importante acontecimento de 1221, porém, foi a fundação da Ordem Terceira da Penitência. Multidões de homens e mulheres, inflamados pela palavra de Francisco e pelo exemplo de todos os Irmãos, lhe pediam que os admitisse na sua Ordem, respectivamente na Ordem de S. Clara. O santo compreendeu que tão vasto movimento ameaçava a ordem social e se opôs a que deixassem o mundo. Deu-lhes então uma Regra, para que, mesmo no mundo, pudessem viver como Religiosos, e quis que se chamassem “Irmãos da Penitência”. É certo, pois, que S. Francisco é o fundador dessa magnífica milícia que é a Ordem Terceira. Mas não é menos certo que o Cardeal Hugolino teve grande parte nesta fundação. A Regra da Ordem Terceira é o “resultado do santo idealismo de Francisco e do realismo pensador de Hugolino”.

A maior preocupação do seráfico Patriarca foi, no entanto, sempre a Regra da Primeira Ordem. A primitiva norma de vida podia bastar a alguns poucos Irmãos. Mas, quanto mais crescia o número dos Religiosos, tanto mais se sentia a insuficiência dela. Em todos os Capítulos, ela era objeto das deliberações. Juntavam-se-lhe novos decretos, novas determinações. Francisco, apoiado por Frei Cesário de Espira, deu-lhes nova organização. E assim foi aprovada a Regra pelo Capítulo de 1221.

Porém ela não agradou, nem aos Ministros, nem ao próprio fundador. Pedia-se uma Regra mais clara, mais resumida. Mais uma vez pôs o santo mão à obra. Levou consigo dois Irmãos ao Monte Colombo, Sinai franciscano, e, entre orações e jejuns, ditou a Frei Leão a Regra, como lhe foi revelada por Nosso Senhor. Foi então a Roma, e o Papa Honório III lha confirmou solenemente pela bula Solet annuere de 29 de Novembro de 1223. Também aqui vemos a influência do Cardeal Hugolino. Francisco não se lhe opôs. O seu altíssimo ideal ficou em pé: Observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade.

Com o coração a transbordar de alegria, o santo quis celebrar a festa do Natal daquele ano de modo todo particular. Escolheu para isso a cidade de Greccio. No ano seguinte, vemo-lo retirar-se ao Monte Alverne, onde o Serafim divino lhe imprimiu os estigmas nas mãos, nos pés e no lado direito. O autor da Crônica dos 24 Ministros Gerais sabe dizer-nos que, naqueles dias ditosos, Cristo revelou ao seráfico Patriarca que assistiria com singular cuidado a seus filhos, que os amigos da Ordem seriam particularmente abençoados e que a Ordem não deixaria de existir até ao fim do mundo.

Descendo do seu Calvário, Francisco “propunha-se, com a ajuda de Deus, a fazer coisas imensas”, como Celano escreve. ” Mas as forças definharam-lhe, mais e mais. No verão de 1225, encontramo-lo numa palhoça, perto de S. Damião, enfermo, quase cego, com grandes dores. A sua alma jubilava. Ele entoou o admirável Cântico do Irmão Sol, ou Hino das Criaturas.

Sentia que se aproximava o fim do exílio terrestre. Ditou então aos seus Irmãos o Testamento. Quis deixar-lhes uma herança digna de seu coração paternal: a santa Pobreza. No dia 3 de Outubro de 1226, depois do sol posto, a irmã Morte veio buscá-lo. Com suave alegria começou a cantar o salmo 141, e continuou cantando até ao fim: “Tira a minha alma desta prisão, para eu dar glória ao teu nome; estão me esperando os justos…”

O Papa Honório III seguiu-o para a sepultura, em Março de 1227. O Cardeal Hugolino subiu ao trono pontifício com o nome de Gregório IX. Ele considerou como caro dever elevar seu santo amigo às honras dos altares. No dia 16 de Julho de 1228, teve lugar a solenidade da canonização. O próprio Papa, venerável ancião de 86 anos de idade, presidiu ao ato entre os júbilos das multidões que afluíram. Gregório cuidou também que lhe fosse erigido um monumento digno. É a magnífica basílica que se levanta na “Colina do Paraíso”, obra-prima de arte. Lá continua o “arauto do grande Rei” a sua missão, através dos séculos: ser um outro Cristo, orar como Cristo, sacrificar como Cristo em humilhações e em pobreza, trabalhar como Cristo pela palavra e pelo exemplo, para conduzir os homens a Deus.


Fonte: A Ordem dos Frades Menores,
Frei Dagoberto Romag, O.F.M
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