Princípio Fundamental da Vida Franciscana

Vésperas de Profissão Religiosa!

O sol poente, coando pelos vitrais do Capítulo, ilumina as feições dos noviços. Á luz do sol, afogueiam-se as fisionomias num arroubo juvenil; amanhã, pelos votos sagrados passarão a filhos ditosos de São Francisco. E, ajoelhados diante da comunidade, com o coração nos lábios, pedem admissão aos votos religiosos:

“Veneráveis Padre, e diletos Irmãos em Cristo, rogo-vos por amor de Deus, da Bem-aventurada Virgem Maria, do Nosso Seráfico Pai Francisco e todos os Santos, vos digneis admitir-me à profissão na Ordem Seráfica, para fazer penitência…”

FAZER PENITÊNCIA, eis a que neste magno dever vai objetivo de suas aspirações futuras. Fazer Penitência! Eis a definição do caráter da vida franciscana.

Em abono de tal convicção podem invocar o testemunho do Seráfico Pai São Francisco, o qual, recordando os desígnios de sua vida, perpetuou o seu Testamento a grata recordação: “Concedeu-me o Senhor a graça de uma vida penitente…”

Com efeito, a penitência e a abnegação são a nota dominante na Regra observada por São Francisco e os seus Filhos.

* * *

Lapidares são as palavras que abrem a nossa Regra: “A norma de vida para os Frades Menores é a observância do santo Evangelho de Jesus Cristo”. E a Regra termina exortando: “Cumpramos à risca o santo Evangelho, conforme prometemos, de todo o coração.”

Depara-se algum contrasenso entre o corpo e a epígrafe da Regra? São Francisco, para quem o Espírito Santo esclarecida o sentido das Escrituras, descobriria na penitência do âmago das prescrições evangélicas?

O Pobrezinho de Assis tinha, sem dúvida, o dom de compenetrar-se das verdades divinas. Na interpretação das Escrituras não há meios de aproximá-lo daqueles que no Evangelho procuram a boa nova de uma redenção sem sacrifícios. São Francisco, reverente aos mistérios da Escritura, afasta-se dos que fazem do Evangelho um receituário vago de amor a Deus e ao próximo.

Não resta dúvida que o Evangelho é grata mensagem da Redenção. Tomado em conjunto, porém, pressupõe nossa cooperação, para nos remir da petulância dos sentidos, do pecado que assoberba nossa fragilidade. “Completo em meu corpo o que me falta à paixão de Cristo”, diz São Paulo Apóstolo, o mais ardente pregador do Evangelho.

Nossa cooperação participa do caráter da Redenção. Esta, porém, foi um portento de abnegação e sacrifício. Para assumir a forma de servo na Incarnação, o Filho de Deus obnubilou quanto possível a sua divindade. Mais tarde, teve de abandonar a forma de servo, quando sacrificou a sua humanidade pela salvação do mundo. Não estranha, pois, que a nossa cooperação seja de caráter penitente, na estrada real da Santa Cruz.

Toda a doutrina, todos os preceitos e conselhos do Evangelho culminam na exortação à penitência: “Quem não renunciar a si mesmo, não pode ser meu discípulo”. Este princípio é o fundamental da moral evangélica.

Francisco teve a ventura de penetrar o sentido do santo Evangelho, quando fez uma ordalia, para saber qual a norma de vida que devia seguir com os seus irmãos. Com simplicidade pediu ao sacerdote que abrisse, com sua mão ungida, o santo Evangelho, por três vezes atinou com o conselho de renunciar a tudo. Na terceira vez deu com os olhos na passagem: ” Quem quiser seguir-me renegue a si mesmo e abrace sua cruz”. O Santo compreendeu, então, ter achado a fonte da sabedoria evangélica. Desvaneceram-se as dúvidas. “Eia, pois, quem quiser abandonar tudo, venha à nossa companhia”.

Quando quis tarde, ultimar a redação da Regra, começou com as palavras: ” A vida dos Frades Menores é observar o santo Evangelho de Jesus Cristo”. E as diversas prescrições da Regra, formulou-as tão conformes à penitência, como não o fizera nenhum Fundador antes dele. No fim da Regra declara não exceder-se em suas exigências impondo a observância pura e formal do santo Evangelho. “Para observarmos o Evangelho, conforme prometemos, de todo o coração”. A interpretação ascética do Evangelho, muito apreciada na Igreja de Deus, colhe seu maior triunfo na Regra de São Francisco.

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Fonte: “Os Mananciais da Vida Franciscana”, Cap. 1 A Individualidade Franciscana, pelo Rev. Pe. Frei Galo Haselbeck, O. F. M. – 1933

Primeiro Sábado do Mês: O Coração de Maria é o Modelo de Pureza

Oração Preparatória

Ponde-vos na presença de Deus, oferecei-lhe a vossa meditação, pedi-lhe luz, atenção e santos afetos.

Primeiro Prelúdio

Imaginemos ver Maria SS. no ato em que oferece todo o seu Coração a Deus e que o Eterno Pai lhe diz: Tu és a minha filha dileta: em ti encontro as minhas delícias.

Segundo Prelúdio

Peçamos ao Senhor que, pelos merecimentos do SS. Coração de Maria, nos conceda a graça de imitarmos a sua pureza o melhor que possamos, para merecermos ser agradáveis a sua divina Majestade e a esta tão cara Mãe.

O Coração de Maria é o Modelo de Pureza

O Coração que não foi nunca manchado com nódoa alguma de culpa, é por certo o mais puro e o mais perfeito: e por consequência um coração que se deve considerar como o modelo verdadeiro da pureza. Foi o Coração SS. de Maria o único que nunca jamais contraiu mancha alguma. Foi isento de todo o pecado desde a sua conceição. Foi livre de toda a culpa atual, ainda a mais ligeira, por isso teve Maria SS., depois de Jesus Cristo, o Coração mais puro que imaginar se pode. É pois o seu Coração o modelo da pureza mais perfeita que se pode encontrar entre as criaturas. Alma religiosa, para que andais vós formando ideias vagas da santidade? A verdadeira santidade depende principalmente de que vós conserveis a vossa alma livre de todo o pecado. Um coração em que se albergue a culpa, é objeto de horror aos olhos puríssimos de Deus, porque pelo pecado se tornou impuro e abominável. Não julgueis que seja só o pecado mortal que torna a alma fria e repelente aos olhos do Senhor; é também o pecado venial deliberado que torna imundo o coração. Se o não faz abominável e de todo execrável na sua divina presença como o pecado mortal, torna-o pelo menos pouco agradável e desconsolador. Ah! Aquela frieza voluntária no serviço de Deus, aquela negligência nas obrigações do vosso estado, aquelas impaciências contínuas, as dissipações tão repetidas nos vossos exercícios de piedade, quanto mancham a vossa alma! Não obrou assim a SS. Virgem. Ela queria ser unicamente do seu Deus, por isso queria que o seu Coração lhe fosse semelhante.

Para o obter, Maria estudava continuamente as perfeições divinas e as retratava em si quanto lhe era possível. Não detestava só a culpa grave, mas a mais leve falta; e era tão primoroso o seu cuidado, tão solícita a vigilância com que se afastava de qualquer coisa que pudesse desagradar a Deus, que, com a graça abundantíssima que lhe foi concedida, se conservou sempre pura da mais ligeira imperfeição. Eu sei bem que nós não podemos aspirar a tão eminente santidade, pois foi um privilégio raríssimo, exclusivamente concedido a Maria SS.; mas sei também que podemos, ajudados com a graça que Nosso Senhor não nega a ninguém e que nunca falta, ser mais solícitos em nos aperfeiçoarmos. Sei que de nós depende não cairmos naquelas faltas que todo os dias contraímos por nossa negligência. Sei que podemos atender com mais exatidão ao cumprimento dos nossos deveres e a à guarda dos sentidos. Fizemos as nossas vistas sobre o Coração puríssimo de Maria e façamos todo o possível por copiar em nós os lineamentos deste modelo perfeitíssimo de pureza. É um verdadeiro engano o daquelas almas a quem se figure que Maria SS. chegou a tão alta santidade só por que foi confirmada em graça e por ter recebido abundantes e especiais auxílios de Deus para esse fim, por isso não podia ter procedido de outro modo. Sim, foi confirmada em graça, teve do ALtíssimo todos os auxílios possíveis, mas a liberdade da sua correspondência era pleníssima e da sua inteira correspondência derivou a sua tão grande santidade. Começai também vós, ó alma religiosa, ó alma cristã, a corresponder deveras á graça, e ver-se-á crescer de mais em mais em vós a perfeição e a santidade. Convencei-vos portanto que o nosso viver com tantos defeitos e pecados, não é porque nos falte aquele benigníssimo Senhor, com os seus auxílios, não: Ele não falta, nós é que faltamos em lhe corresponder. Começai pois desde já e formai bons propósitos de fiel correspondência.

fonte: “meditações e práticas devotas em preparação para a festa do sagrado coração de maria – pelo Rev. Pe. josé de manfredini, S.J. – 1900

Vídeo: “Os Irmãos Franciscanos”

Paz e Bem!

Caros leitores, hoje dia de São Miguel Arcanjo, festa Patronal de nosso Convento, lançamos um vídeo sobre a vida e vocação dos nossos Irmãos Franciscanos. Inscreva-se em nosso Canal no Youtube: Bona Ventura.

Lançaremos uma série de publicações, destinadas ao maior conhecimento da vocação de Irmão Franciscano.

Não Votar é Pecado Mortal?

Bofete- SP, 4 de setembro de 2022

Pax et Bonum! 

Aos caros fiéis de nossas Missões e a quem interessar, exporemos aqui nossa posição sobre as Eleições de 2022.

Após um conjunto de indagações de alguns de nossos fiéis sobre este tema complexo das eleições presidenciais de 2022, resolvemos escrever expondo nossa posição sobre tão polêmico tema, baseando-nos na Teologia Moral da Igreja para tentar esclarecer aos católicos que, já com tranquilidade de consciência, podem e devem exercer seu direito cívico. 

Três considerações básicas e reais norteiam o conteúdo desta carta:

1. Em que estado estamos, ou seja, que governo rege este nação;

2. Que princípios os católicos devem usar para corresponder os seus deveres de cidadãos;

3. Se há obrigação de exercer esse direito.

Primeira Consideração: em que estado estamos, ou seja, que governo rege este nação? 

Resposta:  É conhecido de todos que sempre louvamos a monarquia católica, como forma de governo ideal para organizar um estado. Contudo, devemos levar em consideração o que Pio XI nos ensina: a Igreja não está limitada a nenhuma forma de governo.

“Tampouco se acredita que Nossa palavra seja inspirada por sentimentos de aversão contra a nova forma de governo ou contra outras inovações puramente políticas que ocorreram recentemente na Espanha. Pois todos sabem que a Igreja Católica, não estando de modo algum ligada a uma forma de governo mais do que a outra, desde que sejam salvaguardados os direitos de Deus e a consciência cristã, não encontra dificuldade em aceitar as várias instituições civis, quer monárquicas ou republicanas, aristocráticas ou democráticas.”

(Carta Encíclica: Dilectissima Nobis – S.S. Pio XI – Sobre a injusta situação criada à Igreja Católica na Espanha – 1933).

Devemos nos dar conta da realidade em que vivemos: somos uma República federativa, já legitimada apesar do golpe de 1889. Sabemos que pela teologia moral, quando um governo, mesmo que instaurado por um golpe arbitrário é reconhecido depois de algum tempo pela nação, ele se torna legítimo e portanto, como católicos, naquilo que não vai contra os direitos Divinos e naturais, devemos obedecer. 

No seguimento deste mesmo pensamento, não podemos agir sem levar em conta a realidade em que vivemos, ainda que nossas opiniões sejam contrárias à forma de governo vigente em nosso país. Deste modo, não havendo outra realidade palpável no momento a não ser o regime de República Federativa, as nossas ações devem ser baseadas nos fatos reais e não nos supostos.

Segunda Consideração:  quais princípios os católicos devem usar para corresponder os seus deveres de cidadãos? 

Resposta: Baseando-nos, como já dissemos, no reconhecimento da realidade que nos circunda, esta mesma será utilizada em nosso discernimento sobre esta questão. Para isso, se faz necessário que procuremos minuciosamente analisar as agendas políticas dos presidenciáveis, para formar uma opinião correta e salutar, segundos os nossos princípios católicos.

Alguns teólogos nos ajudam a desenvolver o nosso discernimento a partir da teologia moral, levando em consideração situações difíceis e complexas como é o caso da que vivemos.

Prummer nos dirá no seu “Manuale Theologiae Moralis”, 2, 604.:

“Como o ato de votar é bom, é lícito votar em candidato indigno, desde que haja causa proporcional para o mal feito e o bem perdido. Essa consideração olha simplesmente para o ato de votar em si e não considera outros fatores como escândalo, encorajamento de homens indignos e má influência sobre outros eleitores. Obviamente, se algum ou todos esses outros fatores estiverem presentes, a justificativa para votar em um candidato indigno teria que ser proporcionalmente mais grave. Quase todos os teólogos modernos admitem que eleger um homem que se considera mau não é uma coisa intrinsecamente má, e, portanto, às vezes pode ser permitido por acidente para evitar males maiores.”

(PruMmer – manuale tehologiae moralis, 2, 604)

Nesta perspectiva devemos nos perguntar, tendo como base as agendas dos presidenciáveis e sua conformidade ou não com os direitos Divinos e naturais: temos causa proporcional ou não para votar no presidenciável que se aproxima mais da manutenção desses direitos? Esta é uma pergunta basilar para a formação de nosso discernimento, pois sem ela não é possível chegarmos a uma conclusão racional, de acordo com os princípios do Magistério.

Temos diante de nós de modo bem explícito a posição de algumas agendas quanto à recusa obstinada da manutenção dos direitos Divinos e naturais e, neste caso, a seleção é facilitada, não havendo argumentos para sustentar que possamos dar nosso voto a presidenciáveis em cujas agendas esta mesma recusa encontra-se presente.

Daí segue-se que o próximo passo para a seleção deve-se basear nas agendas que mais se aproximam dos direitos Divinos e naturais. Vede portanto que não sustentamos que essas mesmas agendas estejam em sua totalidade conforme aos mesmo direitos Divinos e naturais, porque infelizmente levando em consideração a realidade atual, nenhuma delas de fato estariam, mas aqui falamos de proximidade e não de totalidade. 

A seleção deve ser feita com responsabilidade e atenção, exigindo trabalho e dedicação, não podendo de modo algum ser feita de forma imprudente e impulsiva ou tendo como base teorias sustentadas no pressuposto. Aliás, em conformidade com a razão natural e segundo os moralistas, o pressuposto na realidade só existe na mente que o supôs, até que seja de fato real.

Por outro lado, também não podemos basear a nossa seleção na teoria da reconstrução advinda pelo caos social, porque sabemos que este princípio filosófico condenado de que a reconstrução vem, a priori, do caos precedente, está extremamente ligado aos princípios das sociedades secretas, já condenadas pelos Papas.

O católico deve sempre buscar reconstruir, reformar, restaurar de fato, através da ordem – e não da desordem, anarquia ou caos social. 

Para salientar ainda este princípio de seleção colocaremos aqui uma citação do Cardeal Amette, Arcebispo de Paris:

“Seria lícito lançá-los para candidatos que, embora não dando total satisfação a todas as nossas legítimas reinvindicações, nos levariam a esperar deles uma linha de conduta útil ao país, em vez de manter seus votos para aqueles cujo programa seria de fato mais perfeito, mas cuja derrota quase certa poderia abrir a porta para os inimigos da ordem religiosa e da ordem social”. 

(John A. Ryan e Francis Boland, Catholic Principles of Politicis, 207 -208).

Terceira Consideração: há obrigação de exercer esse direito?

Resposta: A esta pergunta temos como resposta o nosso último Papa, S. S. Pio XII, cujos ensinamentos não exigem sequer comentários:

“É direito e ao mesmo tempo dever essencial da Igreja instruir os fiéis por palavras e por escrito, do púlpito ou de outras formas costumeiras, sobre tudo o que diz respeito à fé e à moral ou é inconciliável com a sua doutrina e portanto inadmissível para os católicos, seja uma questão de sistemas filosóficos ou religiosos, ou de fins pretendidos por seus promotores, ou de suas concepções morais sobre a vida dos indivíduos ou da comunidade.

O exercício do direito de voto é um ato de grave responsabilidade moral, pelo menos quando se trata de eleger os que são chamados a dar ao país a sua constituição e as suas leis, nomeadamente as que dizem respeito, por exemplo, à santificação dos feriados de obrigação, o matrimônio, a família, a escola e o assentamento segundo a justiça e a equidade das múltiplas condições sociais. Cabe portanto, à Igreja explicar aos fiéis os deveres morais que derivam do direito eleitoral.” 

(Papa Pio XII, Alocução ao Sagrado Colégio dos Cardeais, 16 de março de 1946).

E ainda o Santo Padre continua já em outros discursos:

“É um direito e um dever chamar a atenção dos fiéis para a extraordinária importância das eleições e para a responsabilidade moral que recai sobre todos os que têm direito ao voto.

Sem dúvida, a Igreja pretende permanecer fora e acima dos partidos políticos, mas como pode ficar indiferente à composição de um Parlamento, quando a Constituição lhe confere o poder de aprovar leis que afetam tão diretamente os mais altos interesses religiosos e até a condição de vida da própria Igreja? Depois, há também outras questões árduas, sobretudo os problemas e as lutas econômicas que tocam de perto o bem-estar do povo. Na medida em que são de ordem temporal (embora na realidade também afetem a ordem moral), os eclesiásticos deixam a outros o cuidado de ponderar e tratar tecnicamente com eles para o bem comum da nação. De tudo isso segue que:

É um dever estrito de todos os que tem direito, homens ou mulheres, de participar das eleições. Quem se abstém, sobretudo por covardia, comete um pecado grave, uma falta mortal.

Cada um deve votar de acordo com os ditames da sua própria consciência. Ora, é evidente que a voz desta consciência impõe ao católico sincero o dever de dar o seu voto àqueles candidatos, ou listas de candidatos, que realmente oferecem garantias suficientes para salvaguardar os direitos de Deus e as almas dos homens, para o bem real dos indivíduos, das famílias, e da sociedade, segundo a lei de Deus e a doutrina moral cristã.”

(Papa Pio XII, Discurso aos Delegados da Conferência Internacional sobre Emigração, 17 de outubro de 1951).

Conclusão: Esperamos que as três considerações supracitadas, tendo como fonte da análise a sã razão, a teologia moral e o Magistério da Igreja, possam tranquilizar as nossas consciências e dirigir nossas ações para o que a Igreja espera de nós nessa situação concreta, não nos escusando de nossa responsabilidade quanto ao futuro do país, mas assumindo desde já nosso papel na tentativa sempre atual de reconstrução da civilização católica há muito já enfraquecida, ao menos em sua totalidade de valores.

Rezemos juntos para que as ideologias nocivas e condenáveis não possam continuar seu processo de infiltração em nossa sociedade ou tampouco em nós mesmos. Que Deus abençoe a todos, e que Seu Divino Espírito possa iluminar-vos em vosso discernimento tão importante e decisivo.

Em Jesus e Maria, 

Pe. Frei Pedro Maria, O. F. M. Sub

Guardião

Baixe aqui a carta do Rev. Pe. Guardião em PDF.

O Rosário converte melhor que os discursos

São Domingos de Gusmão recebendo o Rosário da Virgem Maria

Um teólogo distinto por sua ciência julgou-se autorizado a criticar a atitude de São Domingos quando este pregava o Rosário no Languedoc. “Não é,” dizia ele, “por meio da Ave Maria repetida cento e cinquenta vezes que poderemos convencer os hereges, mas sim por sábias explicações da Escritura.” A Mãe de Misericórdia compadecendo-se desse espírito transviado, dignou-se desiludi-lo por uma visão. Ele viu-se com muitas pessoas á margem de um grande rio, que era preciso atravessar e cujas águas rápidas ameaçavam traga-las. Atemorizado com o perigo, o nosso teólogo olhava em torno de si, quando avistou São Domingos, que lançou sobre o rio uma ponte, na qual se elevavam cento e cinquenta torres; depois tirando do abismo cada um dos náufragos acomodou-os nas torres, donde lhes prodigalizou toda sorte de cuidados. Finalmente levou-os a um jardim delicioso, onde a Santíssima Virgem, assentada sobre um trono deslumbrante, distribui uma coroa a todos aqueles que São Domingos lhe apresentava. Vendo is, o teólogo quis adiantar-se também para receber a sua coroa, porém Maria mostrou-lhe um rosto severo e advertiu-lhe que fosse mais dócil, mais simples na fé e que não se deixasse levar pela extravagância dos seus pensamentos.

Tendo despertado, compreendeu o culpado que o rio tão agitado representava o mundo, onde tantas almas naufragam; que a ponte lançada sobre o rio por São Domingos era a devoção do Rosário composto de cento e cinquenta Ave Marias, as quais são outras tantas torres, onde os cristãos podem encontrar um abrigo contra suas paixões e escapar do naufrágio da condenação eterna. O doutor confessou seu erro e volveu a melhores sentimentos. Tornou-se mesmo um apóstolo zeloso da devoção do santo Rosário, e reconheceu logo, por experiência, que este meio de conduzir as almas a Deus opera mais eficazmente que os mais eloquentes discursos.

São Domingos na luta contra a heresia dos Albigenses

“Tenho exercido a missão de pastor e de pregador durante muitos anos”, dizia um santo sacerdote, tenho pregado sobre todos os assuntos do melhor modo que me foi possível, nada desprezei de tudo o que podia instruir, comover e converter as almas que me eram confiadas, mas vendo que trabalhava em vão, e que o fruto de meus trabalhos não correspondia á minha expectativa, resolvi-me a fazer o sacrifício dos discursos estudados, que tinha até então recitado, para experimentar se conseguiria melhor resultado pregando simplesmente sobre a devoção do Rosário, explicando as súplicas que ele contém e os mistérios que são o seu fundamento. Eu tinha posto de lado esta excelente prática, apesar dos remorsos da minha consciência; mas confesso que em menos de um ano fizeram-se mais conversões em minha paróquia do que durante os trinta anos precedentes, quando eu recitava discursos estudados pacientemente”.

Não estão estes avisos de acordo com a doutrina de Santo Afonso, o qual recomenda aos pregadores nada inculcar tanto ás almas como grande meio da oração, e sobretudo o recurso á Mãe de Misericórdia? Convencido da eficácia do Santo Rosário, ele ordena aos seus missionários que o recitem com o povo antes do sermão da tarde, acompanhando-o de uma breve explicação dos mistérios, afim de instruir os ouvintes. A experiência tem provado que se podem tirar desta prática os frutos mais abundantes.

Procissão de Corpus Christi

Um bispo da Espanha, não conseguindo, apesar de todos os esforços de seu zelo, reprimir os depravados costumes dos seus diocesanos, teve a ideia de pregar a devoção do Santo Rosário, a exemplo de São Domingos. Tendo os fiéis abraçado este exercício, em pouco tempo contaram-se numerosas conversões. A ignorância, a impiedade, o desregramento dos costumes e outros vícios foram substituídos pela oração, pela penitência, pela frequência dos Sacramentos e pela prática de todas as virtudes cristãs. Este zeloso prelado, não podendo agradecer suficientemente a Deus pela mudança operada em sua cidade episcopal, ordenou aos vigários da sua diocese que empregassem o mesmo meio, e todos obtiveram o mesmo sucesso; o que transformou a face de toda a diocese.

Quantos exemplos de conversões individuais vem apoiar estes fatos gerais! Maria não é chamada em vão Estrela dos Mares; esta é realmente uma das significações do bendito nome. Ora, a estrela só é útil de noite, sobretudo para aqueles que estão em pleno mar.

Estes são, segundo São Boaventura, os infelizes pecadores. Caídos do navio da graça, rodeados das trevas do pecado, veem-se jogados de um para outro lado entre as ondas do século, sempre expostos ao naufrágio eterno. Para os pôr em segurança, bastaria somente exortá-los a afastarem-se de tantos perigos, e gritar-lhes com São Bernardo: “Se não quereis ser submergidos pela tempestade, olhai para a Estrela” – Isto é, considerai o que é Maria em suas grandezas, em seu poder e bondade; vede-a nos mistérios da Redenção: como ela partilha as alegrias, as dores e as glórias de seu Filho; como ela trabalha com Ele para iluminar, salvar o gênero humano perdido. Contemplai no reino dos escolhidos, coroada Rainha no mais alto dos Céus; e, admirando sua dedicação para com os homens, especialmente para com os pecadores, reanimai vossa confiança e proponde-vos invocá-la afim de que ela vos estenda uma mão protetora no meio dos perigos que vos cercam.

É deste modo que se deveria falar aos infelizes culpados para conduzi-los a Deus. Desde que os tenhamos convencidos a recorrer á Mãe de Misericórdia, á Rainha do Santo Rosário, pode-se esperar que a sua conversão seja sincera e perdurável.

Confissão

Um moço que se tinha entregado ao vício da impureza, não ousava revela-lo na confissão, e contudo aproximava-se algumas vezes da Santa Mesa. Um dia este jovem ouviu um Sermão do Padre Conrado, Dominicano e pregador do Rosário. Seu coração foi conquistado por esta devoção; fez-se inscrever na confraria e começou a tributar á Rainha do céu a homenagem de seus louvores. Ó prodígio! Apenas recitara o Rosário durante três dias, sentiu sua alma inundada repentinamente pelo sentimento de uma fé viva compunção. A lembrança dos seus desregramentos não lhe deixou desde então o mínimo repouso, e ele foi obrigado pelos remorsos a apresentar-se no tribunal da penitência para purificar-se de seus sacrilégios. O Rosário tinha-lhe proporcionado a graça de vencer a tentação da vergonha. Além disto essa devoção comunicou-lhe mais força para resistir aos assaltos de um hábito inveterado, e a calma sucedeu ás agitações de sua alma. Recuperou a paz que há muito tempo não gozava, e que é o prêmio da guerra que se faz a si próprio e ás suas paixões.

Eis o que pode o Rosário, quando é recitado com sincera resolução de emenda! Não é ele, neste sentido, o meio por excelência de converter os corações? Não é a melhor eloquência pregar sobre a prática dele e ensinar a todos os homens a recitá-lo com proveito?

Um mouro, na idade de vinte anons, filho de um príncipe turco, ficando prisioneiro num combate, foi levado para Compostela como escravo.

Reduzido a não ter senão pão e água, sem que pessoa alguma viesse curar as cruéis feridas que lhe cobriam o corpo, caiu no mais terrível desespero. Blasfemava tão horrivelmente e com tanto furor, que Deus permitiu aos demônios dele se apoderassem. São Domingos foi vê-lo, mas encontrou-o extremamente apegado ao maometismo. Á força de instâncias, o Santo chegou a ensinar-lhe a oração dominical e a saudação angélica, e assegurou-lhe que recuperaria a saúde, se recitasse o Rosário em honra de Maria. O mouro nisso consentiu, e logo que o fez os demônios o deixaram. Uma grande consolação se fez sentir em sua alma, e ele não tardou em ser curado de suas feridas. Restituído á saúde pediu para ser instruído na fé cristã e recebeu o batismo com o nome de Eliodato. Obtida a liberdade, continuou em toda sua vida, conforme o conselho de São Domingos, a recitar piedosamente o Rosário em honra de Maria.

Oh! Quantos pecadores inveterados, quantos pecadores escravizados pelo hábito, saíram de seu túmulo com o auxílio da cadeia preciosa do Rosário, que nos liberta da servidão vergonhosa das paixões e nos concilia a liberdade de filhos de Deus!

Batismo

O mouro de quem acabamos de falar, mal recitou o Pater e Ave, desejou logo ser instruído e pediu o batismo; tanto é verdade que a oração bem mais que os discursos opera conversões.

Um último traço, mais recente e que não está consignado em livro algum , acabará de nos convencer desta verdade. Há poucos anos os Padre Redentoristas pregavam uma missão na Normandia. Pelo fim dos exercícios um homem veio procurar um dos missionários e disse-lhe: “Meu Padre, tendes diante de vós o maior celerado que tem existido sobre a terra. Tenho cometido desde longos anos toda a sorte de crimes. Trabalhei mesmo para malograr esta missão, minhas impiedades, minha impurezas; impelindo as crenças, afim de atrair as maldições divinas sobre a paróquia e impedir que ela correspondesse aos vossos esforços!… Não faz ainda três dias, meu Padre, que eu vos esperei á noite em um caminho por onde deveis passar, e minha intenção era imolar-vos ao meu furor. Eu não podia suportar a ideia do bem, tanto estava depravado; hoje venho a vós completamente mudado e não sei como”. -“Não tendes sobre vós um escapulário?” Perguntou-lhe o missionário, “Uma Medalha Milagrosa ou algum outro objeto piedosos?” -“Não, meu Pai, não tenho nada.” -“Não recitais a Ave Maria ou o Terço?” – “Faz sete anos, meu Padre, que minha mãe, no momento de deixar para sempre este mundo, me chamou para perto do seu leito, e me fez prometer, como última lembrança, que recitaria todos os dias o Terço. Acedi e cumpri fielmente a minha palavra; somente uma vez estando embriagado não passei de três dezenas. Mas podeis compreender, meu Padre, á vista da vida depravada que eu levava, como não seriam bem recitados estes Terços!” – “Meu filho”, respondeu-lhe o Padre, “ficai certo que é a esta prática que deveis a vossa conversão”. O culpado confessou-se e tornou-se um cristão fervoroso. Algum tempo depois assegurou que para confessar-se cada mês com o mesmo missionário, estaria pronto a fazer três léguas a pé. Prova evidente da sinceridade de sua conversão!

Ó Maria, eu vos direi com Santo Idelfonso, vós sois aquela de quem está escrito: “Deus disse: Que a luz se faça: e a luz se fez”. Ó luz pura, bela luz, luz que resplandeces no céu, iluminai a terra, amedrontai o abismo; luz que guiais aqueles que se transviam, reanimai aqueles que desfalecem, mostrai-nos nossas máculas, erguei-nos de nossa ruínas, brilhai no meio das nossas trevas, dai saúde aos enfermos, alegria aos que choram. Iluminai os pecadores para conduzi-los á penitência, e guiai á glória eterna todos aqueles que esperam e confiam em vós.

Assim seja.

Ramalhete Espiritual

Religiosa rezando o Rosário

Recitando a Ave Maria, tenhamos a intenção de abranger todos os pecadores da terra nestas últimas palavras: “Rogai por nós, pobre pecadores – Ora pro nobis pecatoribus.”

Refere Santo Afonso, que uma senhora, achando-se ás portas da morte, não queria perdoar a seu marido a quem odiava mortalmente. Um bom sacerdote que lhe assistia, não sabendo mais que meios empregar para converte-la, pôs-se a recitar o Rosário. Chegando á última dezena, isto é, depois de ter repetido pouco mais ou menos cinquenta vezes: “Rogai por nós, pobre pecadores”, o sacerdote achou a doente transformada. Perdoou de boa vontade a seu esposo e morreu nas melhores disposições.

* * * DOCE CORAÇÃO DE MARIA, SEDE A NOSSA SALVAÇÃO! * * *

fONTE: “trinta e uma meditações sobre a excelências do santo rosário” – primeiro dia: o rosário converte melhor que os discursos – Pelo Padre Luiz bronchain, redentorista – Edição: 1913
Copilado por: Frei Serafim Maria, O. F. M. Sub

Senhora Sant’Ana

Mãe da Santíssima Virgem Maria

1º Século

Santa Ana, esposa de São Joaquim e mãe de Nossa Senhora, é a padroeira principal das Arquidioceses de São Paulo e do Rio.

Desde os primeiros séculos, a mãe da Santíssima Virgem Maria, foi venerada na Igreja Oriental. Na liturgia romana a festa foi introduzida no século XIV e XV, em correlação com a devoção à Imaculada Conceição de Maria.

Sobre os pais de Maria, não nos dizem nada os evangelhos canônicos. Sobre tal questão, diz muito sutilmente o Padre Luis Francisco de Argentan, capuchinho do século XVII:

“Se as grandezas de Maria tiveram o pai e a mãe como fontes, era necessário que aparecessem como primeiros, a fim de que espalhassem os raios da própria glória sobre ela, como o sol comunica a luz aos astros que rodeiam; todavia, esta ordem é invertida, porque a Santa Virgem recebeu toda a glória de Jesus Cristo, seu Filho, e, pois, São Joaquim e Santa Ana receberam muito maior glória da filha, pela qual esta incomparável vantagem sobre o resto dos Santos, de ser os mais próximos parentes, segundo a carne, do Salvador do mundo, uma vez que são verdadeiramente pai e mãe da Virgem Maria”.

Se os quatro inspirados evangelistas não se referiram a Santa Ana e a São Joaquim, não ficaram os pais de Maria, entretanto, totalmente apagados: três evangelhos apócrifos falam dos dois bem-aventurados Santos: o Próto-Evangelho de Tiago, o Evangelho do pseudo- Mateus e o Evangelho da Infância.

Segundo o primeiro deles, cuja composição é olhada como muitíssimo antiga, Joaquim e Ana eram piedosos e ricos israelitas da tribo de Judá, possuidores de grandes rebanhos. Não tinha filhos, e isto, para os judeus era motivo de ignomínia.

Um dia, Joaquim, que foi ao templo apresentar uma oferenda, viu-a, tristíssimo, ser recusada pelo sacerdote, justamente por causa da esterilidade da esposa. Arrasado pelo sucesso, o bom homem, ao invés de voltar para casa, com os rebanhos buscou a montanha, desesperado.

Durante cinco meses, ninguém, nem mesmo a esposa, ouviu falar de Joaquim. Desaparecera, e dele, notícia alguma chegava ao lugar em que vivia.

A dor de Ana foi imensa. Dir-se-ia que enviuvara. Mas, um dia, quando, como de costume, fazia as suas preces, um anjo apareceu-lhe, para enche-la de alegria: Joaquim, muito breve, tornaria, e ambos, novamente juntos, haveriam de ter o que tanto desejavam – um filho.

Joaquim, na montanha, também recebeu aquele enviado de Deus, que lhe prometeu a mesma alegria e lhe ordenou que descesse e voltasse para a esposa.

Quando o Santo se aproximava, tornou o anjo a visitar Ana, dizendo-lhe que o marido se avizinhava e, pois, fosse-lhe ao encontro, na Porta Dourada.

Ana, deslumbrada, toda numa alegria sem par, deixou a casa correndo e se precipitou nos braços do esposo.

Assim, exultando, voltaram para o lar, a bendizer a Deus incessantemente.

Nove meses mais tarde, nasceu-lhes uma filha – a qual deram o nome de Maria.

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Nasceu-lhes aquela Maria sublime, pela qual “grandes coisas fez Aquele que é poderoso”, aquela Maria sublime que “resplandeceu de tal abundância de dons celestes, de tal plenitude de graça e de tal inocência, que se tornou como que o milagre de Deus por excelência, ante a culminância de todos os seus milagres, e digna Mãe de Deus – de modo que, colocada, tanto quanto é possível a uma criatura, como a mais próxima de Deus, ela se tornou superior a todos os louvores dos homens e dos Anjos”, a Maria sublime que, com o auxílio divino, quebrou, inutilizou a violência e o poder da serpente.

Nasceu-lhes o Lírio entre os espinhos, a Terra absolutamente intata, virginal, ilibada, imaculada, sempre abençoada e livre de todo contágio de pecado – “da qual foi formado o novo Adão”.

Nasceu-lhes o Jardim “ordenadíssimo, esplêndido, ameníssimo, de inocência e de imortalidade, delicioso, plantado por Deus mesmo e defendido de todas as insídias da serpente venenosa”.

Nasceu-lhes o Lenho imarcescível, ” que o verme do pecado jamais corroeu”. Nasceu-lhes a Fonte sempre límpida, o Templo diviníssimo, o Escrínio da imortalidade.

Nasceu-lhes a Co-redentora dos homens, Medianeira poderosíssima, o Caminho mais seguro e mais fácil para Jesus, a que sofre por nossa causa, a Mulher vestida de sol, que tinha a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça.

Que parto? “Por certo o nosso, pois que, retidos ainda neste degrêdo, carecemos de nascer para o perfeito amor de Deus e felicidade eterna. As dores do parto que nos estão a demonstrar o amor ardente com que Maria zela e trabalha, lá no céu, por suas preces incessantes, para levar o número dos eleitos à sua plenitude (Pio X).

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Quando a menina completou dois anos, Joaquim disse a Ana:

– Conduzamo-la ao Templo do Senhor, a fim de cumprir o voto que formulamos.

Ana respondeu:

– Esperemos até o terceiro ano, porque talvez a menina venha a procurar o pai e a mãe.

Joaquim concordou, dizendo:

– Esperemos.

Quando Maria entrou nos três anos de vida, foi desmamada, e Joaquim disse:

– Chamai as jovens virgens santas de Israel. Que cada qual tome uma lâmpada e a tenha acesa, para que a menina não volte atrás e seu coração não se apegue às coisas fora do Templo do Senhor.

E assim foi feito.

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A glória maior de Santa Ana reside no fato de ter sido a mãe da Imaculada. Foi esposa modelo, humilde, casta, submissa a Deus em tudo, e ao marido. Devotadíssima à filha, colaborou com a obra do Espírito Santo, para fazer frutificar os dons maravilhosos daquela alma.

Avó de Jesus! Eis uma nova, imensa glória, porque de Santa Ana veio o ser humano de Maria, e de Maria todo o ser humano de Jesus. E não foi no sei de Santa Ana que se cumpriu o mistério da Imaculada Conceição, que se deu o prelúdio da Encarnação e da Redenção? Maria, por uma aplicação antecipada do sacrifício de Jesus, não foi a primeira alma resgatada, e, assim, a primeira vitória de seu Filho? Tudo se cumpriu no seio de Santa Ana. E “tudo o que podia ficar profanado, maculado na herança carnal dos reis de Judá, escreveu Osbet de Clare, beneditino inglês, foi inteiramente purificado na carne santa da gloriosa e bem-aventurada Ana”.

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A iconografia da Santa Mãe de Maria seguiu fielmente os progressos da ciência teológica. Até o século XIII, os artistas representaram-na naquela cena comovente que se efetuou na Porta Dourada.

A partir daquele século, com o avanço da crença na Imaculada Conceição, novos temas surgiram. No fim da Idade Média, tendo apreendido dos místicos que Jesus conhecera sua avó aqui na terra, os artistas entraram a representá-lo entre ela e Maria. Assim apareceram as mais belas obras em que figura Santa Ana: a do Mestre Francofort, no museu de Berlim; a de Leonardo da Vinci, no Louvre; a de Quentin Metsys, em Bruxelas, e a do Mestre da Sagrada Família, em Colônia.

Curiosas as esculturas que representam Santa Ana levando ao colo a Maria, que por sua vez, traz consigo, nos braços, o divino Filho.

A mais comum das representações, todavia, é a da Santa tendo a Filha pela mão, mostrando-lhe o livro da Lei, sempre sóbria, de rosto grave, mas o sereno, doce e benfazejo rosto das avós.

FONTE: VIDA DOS SANTOS – 6 de julho: santa ana, mãe de nossa senhora – PADRE ROHRBACHER – III VOLUME – 1952