O Rosário converte melhor que os discursos

São Domingos de Gusmão recebendo o Rosário da Virgem Maria

Um teólogo distinto por sua ciência julgou-se autorizado a criticar a atitude de São Domingos quando este pregava o Rosário no Languedoc. “Não é,” dizia ele, “por meio da Ave Maria repetida cento e cinquenta vezes que poderemos convencer os hereges, mas sim por sábias explicações da Escritura.” A Mãe de Misericórdia compadecendo-se desse espírito transviado, dignou-se desiludi-lo por uma visão. Ele viu-se com muitas pessoas á margem de um grande rio, que era preciso atravessar e cujas águas rápidas ameaçavam traga-las. Atemorizado com o perigo, o nosso teólogo olhava em torno de si, quando avistou São Domingos, que lançou sobre o rio uma ponte, na qual se elevavam cento e cinquenta torres; depois tirando do abismo cada um dos náufragos acomodou-os nas torres, donde lhes prodigalizou toda sorte de cuidados. Finalmente levou-os a um jardim delicioso, onde a Santíssima Virgem, assentada sobre um trono deslumbrante, distribui uma coroa a todos aqueles que São Domingos lhe apresentava. Vendo is, o teólogo quis adiantar-se também para receber a sua coroa, porém Maria mostrou-lhe um rosto severo e advertiu-lhe que fosse mais dócil, mais simples na fé e que não se deixasse levar pela extravagância dos seus pensamentos.

Tendo despertado, compreendeu o culpado que o rio tão agitado representava o mundo, onde tantas almas naufragam; que a ponte lançada sobre o rio por São Domingos era a devoção do Rosário composto de cento e cinquenta Ave Marias, as quais são outras tantas torres, onde os cristãos podem encontrar um abrigo contra suas paixões e escapar do naufrágio da condenação eterna. O doutor confessou seu erro e volveu a melhores sentimentos. Tornou-se mesmo um apóstolo zeloso da devoção do santo Rosário, e reconheceu logo, por experiência, que este meio de conduzir as almas a Deus opera mais eficazmente que os mais eloquentes discursos.

São Domingos na luta contra a heresia dos Albigenses

“Tenho exercido a missão de pastor e de pregador durante muitos anos”, dizia um santo sacerdote, tenho pregado sobre todos os assuntos do melhor modo que me foi possível, nada desprezei de tudo o que podia instruir, comover e converter as almas que me eram confiadas, mas vendo que trabalhava em vão, e que o fruto de meus trabalhos não correspondia á minha expectativa, resolvi-me a fazer o sacrifício dos discursos estudados, que tinha até então recitado, para experimentar se conseguiria melhor resultado pregando simplesmente sobre a devoção do Rosário, explicando as súplicas que ele contém e os mistérios que são o seu fundamento. Eu tinha posto de lado esta excelente prática, apesar dos remorsos da minha consciência; mas confesso que em menos de um ano fizeram-se mais conversões em minha paróquia do que durante os trinta anos precedentes, quando eu recitava discursos estudados pacientemente”.

Não estão estes avisos de acordo com a doutrina de Santo Afonso, o qual recomenda aos pregadores nada inculcar tanto ás almas como grande meio da oração, e sobretudo o recurso á Mãe de Misericórdia? Convencido da eficácia do Santo Rosário, ele ordena aos seus missionários que o recitem com o povo antes do sermão da tarde, acompanhando-o de uma breve explicação dos mistérios, afim de instruir os ouvintes. A experiência tem provado que se podem tirar desta prática os frutos mais abundantes.

Procissão de Corpus Christi

Um bispo da Espanha, não conseguindo, apesar de todos os esforços de seu zelo, reprimir os depravados costumes dos seus diocesanos, teve a ideia de pregar a devoção do Santo Rosário, a exemplo de São Domingos. Tendo os fiéis abraçado este exercício, em pouco tempo contaram-se numerosas conversões. A ignorância, a impiedade, o desregramento dos costumes e outros vícios foram substituídos pela oração, pela penitência, pela frequência dos Sacramentos e pela prática de todas as virtudes cristãs. Este zeloso prelado, não podendo agradecer suficientemente a Deus pela mudança operada em sua cidade episcopal, ordenou aos vigários da sua diocese que empregassem o mesmo meio, e todos obtiveram o mesmo sucesso; o que transformou a face de toda a diocese.

Quantos exemplos de conversões individuais vem apoiar estes fatos gerais! Maria não é chamada em vão Estrela dos Mares; esta é realmente uma das significações do bendito nome. Ora, a estrela só é útil de noite, sobretudo para aqueles que estão em pleno mar.

Estes são, segundo São Boaventura, os infelizes pecadores. Caídos do navio da graça, rodeados das trevas do pecado, veem-se jogados de um para outro lado entre as ondas do século, sempre expostos ao naufrágio eterno. Para os pôr em segurança, bastaria somente exortá-los a afastarem-se de tantos perigos, e gritar-lhes com São Bernardo: “Se não quereis ser submergidos pela tempestade, olhai para a Estrela” – Isto é, considerai o que é Maria em suas grandezas, em seu poder e bondade; vede-a nos mistérios da Redenção: como ela partilha as alegrias, as dores e as glórias de seu Filho; como ela trabalha com Ele para iluminar, salvar o gênero humano perdido. Contemplai no reino dos escolhidos, coroada Rainha no mais alto dos Céus; e, admirando sua dedicação para com os homens, especialmente para com os pecadores, reanimai vossa confiança e proponde-vos invocá-la afim de que ela vos estenda uma mão protetora no meio dos perigos que vos cercam.

É deste modo que se deveria falar aos infelizes culpados para conduzi-los a Deus. Desde que os tenhamos convencidos a recorrer á Mãe de Misericórdia, á Rainha do Santo Rosário, pode-se esperar que a sua conversão seja sincera e perdurável.

Confissão

Um moço que se tinha entregado ao vício da impureza, não ousava revela-lo na confissão, e contudo aproximava-se algumas vezes da Santa Mesa. Um dia este jovem ouviu um Sermão do Padre Conrado, Dominicano e pregador do Rosário. Seu coração foi conquistado por esta devoção; fez-se inscrever na confraria e começou a tributar á Rainha do céu a homenagem de seus louvores. Ó prodígio! Apenas recitara o Rosário durante três dias, sentiu sua alma inundada repentinamente pelo sentimento de uma fé viva compunção. A lembrança dos seus desregramentos não lhe deixou desde então o mínimo repouso, e ele foi obrigado pelos remorsos a apresentar-se no tribunal da penitência para purificar-se de seus sacrilégios. O Rosário tinha-lhe proporcionado a graça de vencer a tentação da vergonha. Além disto essa devoção comunicou-lhe mais força para resistir aos assaltos de um hábito inveterado, e a calma sucedeu ás agitações de sua alma. Recuperou a paz que há muito tempo não gozava, e que é o prêmio da guerra que se faz a si próprio e ás suas paixões.

Eis o que pode o Rosário, quando é recitado com sincera resolução de emenda! Não é ele, neste sentido, o meio por excelência de converter os corações? Não é a melhor eloquência pregar sobre a prática dele e ensinar a todos os homens a recitá-lo com proveito?

Um mouro, na idade de vinte anons, filho de um príncipe turco, ficando prisioneiro num combate, foi levado para Compostela como escravo.

Reduzido a não ter senão pão e água, sem que pessoa alguma viesse curar as cruéis feridas que lhe cobriam o corpo, caiu no mais terrível desespero. Blasfemava tão horrivelmente e com tanto furor, que Deus permitiu aos demônios dele se apoderassem. São Domingos foi vê-lo, mas encontrou-o extremamente apegado ao maometismo. Á força de instâncias, o Santo chegou a ensinar-lhe a oração dominical e a saudação angélica, e assegurou-lhe que recuperaria a saúde, se recitasse o Rosário em honra de Maria. O mouro nisso consentiu, e logo que o fez os demônios o deixaram. Uma grande consolação se fez sentir em sua alma, e ele não tardou em ser curado de suas feridas. Restituído á saúde pediu para ser instruído na fé cristã e recebeu o batismo com o nome de Eliodato. Obtida a liberdade, continuou em toda sua vida, conforme o conselho de São Domingos, a recitar piedosamente o Rosário em honra de Maria.

Oh! Quantos pecadores inveterados, quantos pecadores escravizados pelo hábito, saíram de seu túmulo com o auxílio da cadeia preciosa do Rosário, que nos liberta da servidão vergonhosa das paixões e nos concilia a liberdade de filhos de Deus!

Batismo

O mouro de quem acabamos de falar, mal recitou o Pater e Ave, desejou logo ser instruído e pediu o batismo; tanto é verdade que a oração bem mais que os discursos opera conversões.

Um último traço, mais recente e que não está consignado em livro algum , acabará de nos convencer desta verdade. Há poucos anos os Padre Redentoristas pregavam uma missão na Normandia. Pelo fim dos exercícios um homem veio procurar um dos missionários e disse-lhe: “Meu Padre, tendes diante de vós o maior celerado que tem existido sobre a terra. Tenho cometido desde longos anos toda a sorte de crimes. Trabalhei mesmo para malograr esta missão, minhas impiedades, minha impurezas; impelindo as crenças, afim de atrair as maldições divinas sobre a paróquia e impedir que ela correspondesse aos vossos esforços!… Não faz ainda três dias, meu Padre, que eu vos esperei á noite em um caminho por onde deveis passar, e minha intenção era imolar-vos ao meu furor. Eu não podia suportar a ideia do bem, tanto estava depravado; hoje venho a vós completamente mudado e não sei como”. -“Não tendes sobre vós um escapulário?” Perguntou-lhe o missionário, “Uma Medalha Milagrosa ou algum outro objeto piedosos?” -“Não, meu Pai, não tenho nada.” -“Não recitais a Ave Maria ou o Terço?” – “Faz sete anos, meu Padre, que minha mãe, no momento de deixar para sempre este mundo, me chamou para perto do seu leito, e me fez prometer, como última lembrança, que recitaria todos os dias o Terço. Acedi e cumpri fielmente a minha palavra; somente uma vez estando embriagado não passei de três dezenas. Mas podeis compreender, meu Padre, á vista da vida depravada que eu levava, como não seriam bem recitados estes Terços!” – “Meu filho”, respondeu-lhe o Padre, “ficai certo que é a esta prática que deveis a vossa conversão”. O culpado confessou-se e tornou-se um cristão fervoroso. Algum tempo depois assegurou que para confessar-se cada mês com o mesmo missionário, estaria pronto a fazer três léguas a pé. Prova evidente da sinceridade de sua conversão!

Ó Maria, eu vos direi com Santo Idelfonso, vós sois aquela de quem está escrito: “Deus disse: Que a luz se faça: e a luz se fez”. Ó luz pura, bela luz, luz que resplandeces no céu, iluminai a terra, amedrontai o abismo; luz que guiais aqueles que se transviam, reanimai aqueles que desfalecem, mostrai-nos nossas máculas, erguei-nos de nossa ruínas, brilhai no meio das nossas trevas, dai saúde aos enfermos, alegria aos que choram. Iluminai os pecadores para conduzi-los á penitência, e guiai á glória eterna todos aqueles que esperam e confiam em vós.

Assim seja.

Ramalhete Espiritual

Religiosa rezando o Rosário

Recitando a Ave Maria, tenhamos a intenção de abranger todos os pecadores da terra nestas últimas palavras: “Rogai por nós, pobre pecadores – Ora pro nobis pecatoribus.”

Refere Santo Afonso, que uma senhora, achando-se ás portas da morte, não queria perdoar a seu marido a quem odiava mortalmente. Um bom sacerdote que lhe assistia, não sabendo mais que meios empregar para converte-la, pôs-se a recitar o Rosário. Chegando á última dezena, isto é, depois de ter repetido pouco mais ou menos cinquenta vezes: “Rogai por nós, pobre pecadores”, o sacerdote achou a doente transformada. Perdoou de boa vontade a seu esposo e morreu nas melhores disposições.

* * * DOCE CORAÇÃO DE MARIA, SEDE A NOSSA SALVAÇÃO! * * *

fONTE: “trinta e uma meditações sobre a excelências do santo rosário” – primeiro dia: o rosário converte melhor que os discursos – Pelo Padre Luiz bronchain, redentorista – Edição: 1913
Copilado por: Frei Serafim Maria, O. F. M. Sub

Nossa Senhora do Monte Carmelo – 16 de julho

Nossa Senhora do Carmo – Pintura por Pietro Novelli

A comemoração de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou Nossa Senhora do Carmo, foi instituída pelos carmelos entre 1376 e 1386, para celebrar a aprovação da regra daqueles religiosos pelo Papa Honório III.

O dia 16 de julho evoca, segundo a tradição dos carmelos, uma aparição de Nossa senhora a São Simão Stock, para lhe dar o escapulário.

No princípio do século XVII, o dia 16 tornou-se como a festa do Escapulário, que o Papa Bento XIII estendeu por toda a Igreja do universo.

O intróito utiliza o de Santa Ágata e poderia ser de origem grega. “Rejubilemo-nos no Senhor, celebrando a festa em honra da bem-aventurada virgem Maria”, porque Ela é a “causa da nossa alegria,” pois foi quem nos deu Jesus Cristo, nosso Salvador.

A coleta recorda que a ordem do carmelo recebeu o título de Maria. A Epístola é tirada do Eclesiástico, e diz:

Como a vide lancei flores de um agradável cheiro; e as minhas flores dão frutos de glória e de riqueza. Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim há toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos os que desejais, e enchei-vos dos meus frutos. Porque o meu espírito é mais doce do que o mel, e possuir-me é mais agradável que o favo de mel. A minha memória durará por toda a série dos séculos. Os que me comem terão ainda fome, e os que me bebem terão ainda sede. Aquele que me ouve não será confundido, e os que agem por mim não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna.”

Virgem do Monte Carmelo

O responso-gradual é o da Visitação. O versículo aleluítico canta a Mãe de Deus que restitui aos homens a vida perdida. O evangelho é um fragmento do evangelho do terceiro domingo da Quaresma, e o versículo do ofertório adaptado de Jeremias: suplicar à Virgem para que seja nossa advogada. A secreta pede para que nossas ofertas sejam salutares, graças à Mãe de Deus. A antífona da comunhão implora a intercessão da Rainha do mundo, e a pós-comunhão deseja ajuda, proteção e concórdia, graças à Mãe de Deus.

Fonte: Vida dos Santos – Padre Rohrbacher – III Volume – 1959