Espiritualidade Franciscana

“A Regra e vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem próprio e em castidade. Frei Francisco promete obediência e reverência ao Senhor Papa Honório e aos seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana; e os demais Frades obedeçam a Frei Francisco e aos seus sucessores.”


São as estas as palavras que principiam a Santa Regra dos Frades Menores. À primeira vista parece-nos muito pouco estes preceitos que resumem a vida franciscana: observar o Evangelho, viver em obediência, pobreza e castidade, e ser fiel filho do Vigário de Cristo sobre a terra. Entretanto, estas poucas palavras encerram em si todos os conselhos e admoestações contidas no Texto Sagrado, assim como os dois preceitos da Caridade encerram todos os Mandamentos. O texto íntegro da Regra, recebido do próprio Nosso Senhor pelo Seráfico Patriarca, não faz mais do que clarificar e relembrar aos frades as notas que constituem a suma da perfeição evangélica.

Uma vez que o Evangelho não é senão a narração da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo quanto fez e tudo quanto ensinou, sua observância é, pois, a exata imitação de Cristo, o assemelhar-se ao Salvador imitando em tudo suas virtudes. Há, no entanto, um ponto culminante para o qual tende toda a razão de ser da vida humana de Jesus Cristo, e que constitui o ápice para o qual convergem e do qual derivam todos os escritos sagrados da Antiga Lei, todos os feitos e exortações apostólicas e todo o desfecho que encerrará esta existência mortal: A obra da Redenção, consumada no lenho da Cruz. Sendo este, pois, o ponto sobressalente da Encarnação, pede a observância evangélica que o seja também na vida de quantos querem viver segundo a imitação do Santíssimo Redentor: nisto consiste a alteza da vida evangélica, a qual quis São Francisco para seus filhos. “Scio Christum Pauperem Crucifixum” – Só conheço o pobre Cristo crucificado – exclamava o Santo Patriarca, dando por estas palavras a completa definição da vida que escolheu para si e para seus frades: imitar o Salvador crucificado. Isto não se pode negar, quando vemos que Nosso Senhor, ao traçar àquele nobre jovem sua santa e cavalheiresca missão, lhe fala desde um crucifixo. São Francisco vê, contempla Cristo crucificado, o Cristo que, embora sua natureza humana padecesse o medo e a agonia, faz-se obediente até a morte, e morte de cruz; o Cristo que, sobre a cruz, despojado até mesmo de suas vestes e sem ter com que saciar a sede, nada possuía a não ser o Amor que ardia em seu coração e lhe fazia dar com generosidade a própria vida pela reconciliação do gênero humano com o Bom Deus; o Cristo, sede da castidade, cujo peito é para as almas puras um afável repouso.

A Obediência

Perguntado certa vez São Francisco sobre qual deveria ser a perfeita obediência, utilizou-se da seguinte analogia: “Tomai um cadáver e colocai-o onde quiserdes. Vereis que não se queixará de ser movido ou deixado aqui ou acolá. Se for posto numa cátedra, olhará para baixo, e nunca para cima; se o vestirem de púrpura, parecerá ainda mais pálido: assim é a perfeita obediência”. O franciscano, em virtude deste voto, renuncia a uma das coisas que nos são mais caras: a vontade própria, e por isso já não faz ele o que quer, quando quer e nem como quer, mas, abandonando-se inteiramente nas mãos dos superiores e dos padres espirituais, faz da vontade deles a sua própria, como a vontade do Pai Celestial é a vontade de Cristo. Assim, pois, nobremente abre-se mão da liberdade que é própria da natureza do homem, para ser livre na alegria e na paz de espírito de que gozam os filhos de Deus.

O Poverello tinha ainda uma especial devoção, a qual preceituou também a todos os seus filhos na Regra: a particular estima para com o Sumo Pontífice, Vigário de Nosso Senhor sobre a terra, e pai de todo o povo católico. Não queria São Francisco dar um passo fora da vontade do Príncipe dos Apóstolos, e por isso fez questão de dar a seu instituto o selo da obediência quando por duas vezes acorreu ao Papa para pedir-lhe, numa, a aprovação de sua Ordem e noutra a confirmação da Regra escrita, confirmada em bula por Sua Santidade Honório III. Ainda na Regra preceitou que seus frades a ele recorressem para obter um Cardeal que fosse protetor e corretor de toda a Ordem, demonstrando assim a submissão que deveriam ter ao Romano Pontífice e à Santa Igreja, diferentemente de outros institutos da época, de vida semelhante porém heréticos, os quais rechaçavam tal obediência.

A Dama Pobreza

Diferentemente de outros institutos, a pobreza vivida na Ordem Seráfica vai ao cume do possível a uma organização religiosa. Os membros das demais ordens e congregações nada possuem de próprio, mas o instituto ao qual pertencem detém da propriedade dos bens, e assim podem prover-lhes uma certa estabilidade, sem ferir entretanto o voto de pobreza particular de cada membro. A Ordem Franciscana, porém, vive a renuncia da propriedade tanto em particular como em comum: nem os membros e nem o instituto possuem propriedade alguma. Todos os bens dos quais a Ordem faz o uso de fato pertencem ou ao Romano Pontífice ou a terceiros, sendo sempre administrados por síndicos, e jamais pelos frades. Sendo assim, a Ordem não possui fundos de resguardo, não podendo assim garantir provisões às contingências. Desta forma, os Superiores devem socorrer as necessidades dos frades recorrendo a amigos que possam, por Caridade, dar suporte naquilo que necessitam. Na hipótese de impossibilidade de se recorrer a tais amigos, restam ainda duas formas de se remediar a necessidade: a) Trabalhar para receber, embora não por direito, aquilo que necessitam, excluindo, entretanto, a remuneração em dinheiro; b) Recorrer à mesa do Senhor, pedindo esmolas de porta em porta. Portanto, à semelhança de Cristo, o franciscano não tem onde reclinar a cabeça, dependendo em tudo da Providência Divina e da Caridade de piedosas almas.

A Castidade

Para além de, por amor a Deus, abrir mão do direito natural do matrimônio, abstém-se ainda o franciscano de qualquer trato e relação com pessoas alheias à vida religiosa, mormente com mulheres, donde possa resultar familiaridades, ainda que por vezes não sejam elas más em si mesmas, e, para os que vivem no século, havendo uma mutua inocência podem originar sinceras e santas amizades. Tal estreiteza, entretanto, é vedada aos frades menores, para que, nas palavras do próprio São Francisco, daí não nasça algum escândalo entre os irmãos ou por causa destes. É proibido ainda ao franciscano todo trato desnecessário com religiosas, e aqueles que devem ser capelães dos conventos de freiras, não o podem ser senão com licença prévia e expressa da Sé Apostólica. Deste modo quis o Seráfico Padre salvaguardar o lírio da pureza e da castidade, tão caro a Nosso Senhor, entre os filhos cujo a custódia lhe fora confiada.

Esta é, pois, a observância evangélica estimada por São Francisco: obedecer, porque Cristo foi obediente ao Pai Celestial, renunciando a tudo para abraçar somente a vontade divina; nada possuir, porque o Filho do homem não tinha onde repousar a cabeça, tendo por leito no nascimento a uma áspera manjedoura e na morte o pesado madeiro da Cruz; ser casto por que Cristo foi casto e ama com predileção as almas castas. Tudo isto por amor Daquele que nos ama como que se esgotando em capacidade de amar. E, no entanto, longe de ser essa imitação um motivo de tristeza e de certa melancolia, São Francisco fazia da vida em Deus uma perpétua e alegre canção, votando a todas as criaturas o seu afeto decorrente do seu perfeito amor a Deus, contemplando-as e nelas bendizendo a bondade divina, que alimenta diariamente as pobres aves que não semeiam e nem colhem, que faz o sol nascer para o honesto camponês e para o iníquo ladrão, que não quer a morte do pecador, mas que este se converta e se salve. Compreendia o Santo a sumidade da alegria que gozam aqueles que, encontrando um tesouro escondido no campo, vão e vendem tudo o que possuem para adquirir aquele precioso terreno, e conhecia bem a profundidade das palavras do salmista: “Subirei ao altar de Deus para oferecer o sacrifício da total renuncia, e assim possuir o mesmo Deus que é a alegria da minha juventude.” Esta alegria do Seráfico Pai a herdaram inevitavelmente seus filhos, os quais, não possuindo nada debaixo do céu, mas atendo-se ao tesouro da santíssima pobreza e às virtudes de Cristo, gozam da alegria de herdeiros de um Grande Rei, segundo as palavras do mesmo Santo, não tendo a tristeza lugar que ocupar na família seráfica.


Portanto, nisto se resume a alma e a espiritualidade do franciscanismo: imitar ao pobre Cristo crucificado; imitar-Lhe a ardente caridade que O levou a, como que exaurindo-Se, dar-se sem reservas às almas, não poupando a própria vida para ter consigo na eternidade aqueles que ama; renunciar-se a si mesmo, não tanto porque as afeições terrenas são um entrave à perfeição, mas porque Cristo, por amor de nós, renunciou-se a si mesmo; amar toda a criação por amor do Criador e fazer desta vida em Deus um cântico perpétuo, na alegria de, não possuindo nada debaixo do céu, ser filho da Senhora Pobreza, a qual constitui para o Reino dos Céus herdeiros e reis. Assim, pode o franciscano exclamar com o Seráfico Patriarca: só conheço o pobre Cristo Crucificado.